O Bailarico do Game Pass

Pontapé na porta. O baile está novamente armado. O motivo do bailarico? Os fundos foram desbloqueados e a rapaziada está de volta ao Xbox Game Pass. Para trás ficaram meses de seca e agora é tempo de ir à fonte e tirar a poeira às subscrições abandonadas. Perante a minha negligência, acumulou-se um catálogo significativo de videojogos no serviço da Xbox e agora não tenho outra alternativa senão deliciar a curiosidade com alguns dos melhores títulos independentes deste e do ano que já lá vai. Os nomes sonantes da indústria ficam no balneário, os AAA não vão ao baile, estão de castigo e não há tempo para dizer o óbvio sobre os suspeitos do costume.

O regresso ao Game Pass era há muito aguardado, mas não sou falso. Regresso com a mesma facilidade com que cancelei a minha subscrição. Nunca foi tão fácil recusar o cântico de sereia deste “futuro dos videojogos”. Não regresso porque se trata de um serviço obrigatório ou incontornável, nada o é – um problema que assombrará para sempre estas ofertas fungosas da indústria de entretenimento, que se multiplicam até ao descartável -, mas estaria a ser falso se não sentisse uma certa euforia ao aperceber-me novamente das capacidades do seu jogo de espelhos. O potencial é real e estes serviços também são montras válidas para grandes fatias desta indústria. É uma Sodoma dos tempos modernos e nós adoramos que assim seja.

E não nos podemos esquecer da abertura dos serviços a vários dispositivos e formatos, como as possibilidades do XCloud ou do…Gaikai? O que raio é que a PlayStation ainda usa? Independementemente disso, é bom termos opções.

Acima de tudo, o Game Pass, à semelhança do PlayStation Plus, é sinónimo de jogos independentes e de descobrimento. Eu sei que é apetecível ter acesso a jogos de 60€ por apenas 12,99€ mensais, como se estivessem a enganar o sistema com esta tramoia dos tempos modernos, mas não são os AAA que alimentam regularmente os serviços de streaming e subsequentes coleções virtuais, mas sim os ícones que surgem nas listagens e que desconhecemos por completo. As histórias nascem assim. Podem pintar o serviço como quiserem e com as cores que bem entenderem, mas a indústria ganha ao termos uma maior disponibilidade de títulos únicos, face a face com os grandes e menos curiosos de títulos produzidos por estúdios com ™ em tudo o que fazem. Este é o encanto do Game Pass para mim e isso ninguém me tira – a não ser quando cancelo a subscrição.

Com Ultimate já na lapela, como se fizesse novamente parte de um clube VIP, estava decidido em tirar uma teima. Seria Sable para mim? Em 2021, o meu primeiro contacto com o título da Shedworks – saído da mente de Gregorios Kythreotis – foi agridoce. Senti o potencial, mas a demonstração, lançada algures no verão, não conseguiu colmatar o que pareciam ser décadas de expetativas acumuladas e o desapontamento foi inevitável. Parecia ser um videojogo de tons díspares, cujas valências limitavam-se ao fantástico estilo visual e à sua banda sonora, mas, não podia estar mais enganado. Limpei a expetativa, banhei-me na curiosidade e na teimosia ao regressar ao seu mundo desértico. Sable é uma viagem introspetiva, sem direções ou obrigatoriedades, num mundo desértico, mas belo, onde somos apenas uma migalha de areia na sua história e cultura – mas estamos vivos, existimos e absorvemos a beleza em tudo o que nos rodeia.

Retiremos as comparações facilitistas da frente, ainda que seja obrigatório a tecê-las em prol do Código do Crítico. Não sentia esta vontade em explorar e em conhecer um mundo desde que revisitei Hyrule em Breath of the Wild. Podem lançar o vosso riso mais jocoso, não me importa. O que me importa é a inocência e a ingenuidade com que explorei o mundo de Sable e o quis tornar familiar, onde tudo era novidade, desde a montanha mais distante à nave abandonada nas areias quentes. A sua história de crescimento e busca de identidade, que a nossa personagem é culturalmente obrigada a viver – numa busca por máscaras que simbolizam um lugar nesta sociedade em sobrevivência – constroem-se não só pela narrativa, mas também pelas pequenas decisões que tomamos e pelas missões que decidimos concluir ao longo da nossa viagem. A ausência de obrigatoriedade mecânica e de uma estrutura narrativa rígida são refrescantes em Sable e o que é pequeno torna-se gigante, como um simples salto pelas dunas, uma nova e inesperada zona que surge no horizonte ou uma nova peça que adicionamos à nossa mota voadora.

A sensação de descoberta é honesta e Sable está constantemente a motivar-nos a arriscar, a alimentar a nossa imaginação e a dizer-nos: “tu consegues, vai ver o que está do outro lado”.

O que me fascina em Sable é a sua calma. Parece que entramos num conto de verão, numa tarde serena onde conseguimos ouvir o som do vento pelas árvores ou a maré à distância. Avançamos movidos por curiosidade e pouco mais. É um jogo onde desculpamos os seus defeitos se entrarmos na sua ambiência e no ritmo de exploração, ainda que o seu mundo aberto acabe por cair nas armadilhas do costume – como cartógrafos escondidos em torres que desbloqueiam partes do nosso mapa ou pontos de interesse que nos encaminham pelas missões -, mas existe sempre a possibilidade de ignorarmos tudo e seguirmos apenas o nosso caminho. O que é impossível de ignorar é o seu desempenho, que é tão inconsistente e, por vezes, devastador, que me vejo impossibilitado de recomendar Sable a qualquer jogador. É preciso paciência para ver esta ocasional apresentação em PowerPoint, cuja magia é roubada constantemente e sem despudor.

A paz foi alcançada. Depois de anos de espera, Sable conquistou o meu coração. Mais um ponto para o Game Pass e mais outro para a minha carteira. A felicidade monetária foi alcançada pela possibilidade de jogar algo sem pagar por ela. Isto não é distópico? Apesar de adorar esta abertura e disponibilidade de catálogos de videojogos, não consigo não pensar no quão estamos a moldar a noção do que é um videojogo, o seu valor monetário e o que significa adquirir um videojogo atualmente – quanto mais no futuro. Questões para outros Nostradamus dos podcasts. Voltemos ao que interessa.

Infelizmente, nem tudo são pérolas no Game Pass, que o diga Lake, um jogo que parecia ter tudo para ser um título de culto, mas que não passa de uma má série do Fox Life. A rigidez narrativa, que se esconde timidamente atrás de escolhas pouco ou nada entusiasmantes – que tentam criar a profundidade que nunca existiu em Lake -, é o palco perfeito para esta fatia do quotidiano, onde encontramos Meredith, uma mulher que acaba de regressar à sua terra natal no fantástico ano de 1986. Durante 15 dias, Meredith assume o papel de carteiro de Providence Oaks e leva-nos numa visita quase guiada pela vila enquanto conhecemos os seus habitantes – e isto é um aborrecimento sem fim. O tema é-me próximo, mas a jogabilidade é tão lenta e pouco impactante que sentimos que estamos constantemente a fazer as mesmas ações e a viver os mesmos diálogos ao longo dos 15 dias mais dolorosos da nossa existência.

O pitoresco é desperdiçado, mas, de certeza que a história de Lake irá ter os seus fãs.

Repito e reforço: não tenho quaisquer problemas com a estrutura de Lake. De facto, foi esta apropriação do quotidiano que me aguçou a curiosidade, mas Lake faz muito pouco com o seu cenário idílico de uma América do Norte perdida nos anos 80. Até a década é-nos forçada sem grande imaginação, relegada a referências fáceis e sem peso, como se a sua obrigatoriedade suplantasse a sua necessidade narrativa – como referências tecnológicas, sociais e cinematográficas. A vontade de desconstruir a rotina e o idealismo de décadas passadas podia ter constituído a verve de Lake, mas não foi isso que a Gamious procurou e eu respeito essa decisão. No entanto, algo devia ter cedido e a jogabilidade podia ter colmatado a timidez narrativa que prende Lake à relatividade. Algures na rota de Meredith, que se constrói entre a entrega de cartas e encomendas e paragens ocasionais para diálogos mundanos, está enterrada uma história de auto-análise, de aceitação do passado e do peso do futuro.

A minha Xbox Series X, que muitos já apelidam de obsoleta – em prol de uma Smart TV da Samsung, que não está a patrocinar este texto ou qualquer artigo do GLITCH -, ainda está a instalar vários videojogos que deixei escapar durante o meu interregno. As possibilidades são imensas. Neste momento, Tunic e Trek to Yomi estão lentamente a construir-se no interior da minha consola, à velocidade de um router localizado noutra divisão da casa – que é, de acordo com a minha experiência, um dos vários círculos do Inferno Moderno – e eu sei que me esperam mais experiências que estariam distantes se não fosse pelo Game Pass. Já paro de bajular o serviço, não se preocupem, até porque, como referi anteriormente, sinto que estamos a caminhar para uma bolha que irá rebentar daqui a cinco ou dez anos – eu também sei ser Nostradamus de Loures -, mas as vantagens de um serviço de streaming são muitas e uma delas é, sem dúvidas, a preservação de videojogos. Mantenho as esperanças altas, pois, acredito que este formato poderá unir as várias gerações de jogadores em torno do que adoramos: os videojogos.

Sem o Game Pass, não teria a oportunidade de experimentar The Gunk, outro videojogo que se formou no interior da minha consola à velocidade de um router localizado numa outra divisão da casa, cujo classicismo estrutural – muito linear e dividido por capítulos, apostando num sistema de atalhos e fast travel para unir o seu mundo alienígena – é enaltecido por um foco interessante nas personagens Rani e Beck, mas também na exploração de zonas distintas, mas muito condensadas, onde a progressão é viciante.

Uma aventura curta e perfeita para experimentar entre grandes lançamentos.

Não sabia o que esperar de The Gunk e com o Game Pass tive a oportunidade de dar o salto e não pensar duas vezes. Está experimentado e aprovado. Adoro a sua simplicidade e a linearidade é reconfortante nesta fase da indústria, com a Image & Form a focar a sua atenção nas personagens e numa enorme satisfação visual quando conseguimos limpar os cenários da gosma escura e despertamos a sua beleza natural. É um sistema tão simples, mas impactante que estamos constantemente à procura da próxima mancha de gosma para recuperarmos o planeta à sua versão original. Qual Super Mario Sunshine, mas sem a irritação!

O foco é o Game Pass, mas podia estar a falar do PlayStation Plus Premium ou do Nintendo Swit…ou de qualquer outro serviço de subscrição, mas a intenção é reforçar a importância e a magia destes serviços – pelo menos até atingirmos o seu inevitável fim, cujas repercussões estamos longes de conhecer. Quero focar-me na disponibilidade e na acessibilidade de videojogos que nunca chegariam a um público tão vasto e afastar, por breves momentos, a negatividade que banha esta indústria feita de chorões. Mas é difícil evitar por completo o medo e o facto de existir uma certa descartabilidade nestas subscrições. Por enquanto, está tudo bem e se isto não é bom, o que será? Se calhar o router na divisão correta, mas a NOS que se lixe. O resumo é este: é bom voltar ao Game Pass. O baile é para continuar, ainda há muito para dançar. Venham todos.

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