A Guerra das Consolas 3000 — Retaliação

Não há forma de adocicar o que vou dizer a seguir, por isso, não me vou perder em rodeios, em teses, antíteses e sínteses porque o tema não o merece, mas é preciso gritar contra as vozes que cansam e desgastam uma indústria que teima em ser infantil até ao tutano. A guerra de consolas é das coisas mais parvas, desnecessárias e tóxicas que algumas vezes podiam ter acontecido à indústria dos videojogos, mas é igualmente incontornável e até imparável, alimentada por décadas de escárnio que apanharam praticamente todos os jogadores e amantes de videojogos na sua rede. Eu fui um adepto desta guerra quase centenária e vocês certamente também o foram. Tinham uma consola, queriam que ela fosse a melhor. Não existia dinheiro para tudo. Eu compreendo. Mas nós tínhamos 15 anos. Qual é a vossa razão para se alistarem na Sony Defense Force ou na Enemies of PlayStation?

Não existe uma notícia, análise, artigo de opinião ou rumor que não sejam manchados pela polémica “a minha é melhor que a tua”, eliminando por completo quaisquer oportunidades de diálogo por uma comunidade que devia estar mais atenta do que realmente está. Só importa saber quem roubou a quem, que nota foi superior e de que forma uma consola/marca destacou-se acima das suas rivais. Os problemas reais, de uma indústria incapacitada de mudar, não interessam nesta guerra, exceto se servirem para deitar abaixo as comunidades rivais. O sexismo, xenofobia, exploração laboral e racismo só são importantes quando a “outra companhia” é o alvo. Até lá, não é difícil encontrar comentários que indicam que os produtores e criativos da indústria só têm de “aguentar” e “calar-se”, pois, política nunca fez parte de uma indústria que nos deu títulos como Ultima IV: Quest of the Avatar há mais de 30 anos, para não falar dos inúmeros títulos antiguerra e de simulação que nunca esconderam as suas ideologias. Mas política? Zero.

Esta imagem remete a uma época tão distante que se torna ainda mais triste pensar como a guerra das consolas continua tão ativa.

Não quero ignorar por completo as virtudes das redes sociais, mas, a título pessoal, não consigo não demonstrar o meu desagrado ao observar no que se transformaram. Vou mais longe: em certos dias, vejo como as redes sociais como um erro para a comunidade de videojogos. O que devia ser um espaço de diálogo é tudo menos isso. Existe um enaltecimento de grupo que nunca compreendi na indústria dos videojogos, onde parece borbulhar um direito divino que procura desculpabilizar todos os ataques às várias comunidades desta área. É um enorme e crescente problema graças à disponibilidade de redes como o Twitter, Instagram, Tik Tok e o putrefacto Facebook. Chegámos a um ponto na nossa existência onde a opinião é a única forma de analisar e olhar para a indústria, onde o “diz que disse” é tão ou mais importante do que um artigo científico porque é “movido pela verdade”. A guerra das consolas alimenta-se desta verve comunitária, onde uma pessoa anónima pode e vai dizer a um produtor de videojogos o que deve fazer com o seu projeto, ao ponto de se posicionar acima de criativos por ter o controlo monetário sobre o sucesso de um videojogo. Não sou ingénuo e bem sei que a guerra das consolas só teria propensão a piorar com as redes sociais, mas precisamos de uma maior maturidade na forma como discutimos sobre videojogos. Aliás, precisamos de discutir a indústria e os seus produtos pelo que são, ambicionando o melhor desta área que (supostamente) adoramos, mas não é isso que interessa. O que interessa é se um jogo está associado à cor azul, verde e vermelha. Curioso.

A infantilidade não nasce apenas da comunidade Sony, Xbox, Nintendo ou PC. Existem muitos dedos para apontar e começa obviamente pelo sistema capitalista em que se construiu a área dos videojogos, onde a competitividade originou esta atitude de claque para motivar os consumidores a participarem na área, mas também a defenderem e a apoiarem monetariamente as suas marcas favoritas. A própria indústria dos videojogos alimentou esta guerra durante gerações e acredito que continue a alimentar, apesar de se pintar ocasionalmente como uma indústria inclusiva. Na verdade, criam-se os alicerces para esta necessidade de pertença, de apoio à marca e injeta-se uma culpabilidade nojenta no consumidor que sente que tem de adquirir produtos para evitar que a sua plataforma desapareça no futuro. No final do dia, tudo é um negócio e a parvoíce é uma boa motivação para agarrar aqueles que adoram perder tempo a dizer que The Last of Us é melhor do que Halo, não pelo seu design, mas, porque está disponível numa determinada consola — e se adicionarmos a atual aposta no PC, pronto, rebentamos com a cabeça destes supostos fãs.

A equipa de executivos a lerem os vossos comentários.

A guerra também é alimentada pelos meios de comunicação. Em Portugal, basta olhar para os nossos colegas da Eurogamer PT, Leak e afins. É preciso ter consciência da nossa posição neste conflito de egos. Os sites vivem dos cliques diários e o mundo digital é implacável. É compreensível existir esta correria às notícias e aos títulos falsamente informativos ou apelativos, mas é necessário traçarmos um limite. O que estamos a alimentar é uma guerra de conflitos e a tentarmos ganhar algo com ela (CLIQUES), quando, na verdade, saímos sempre a perder. A guerra é tão efusiva que os sites também são apanhados nesta divisão entre equipas, especialmente quando se tentam aproveitar da verve das comunidades rivais. É por esse motivo que sites como o Eurogamer PT não conseguem escapar ao estigma que têm junto dos leitores, que os acusam de favoritismo a determinadas marcas sempre que lançam uma notícia que parece contradizer uma posição passada que forçaram em prol de cliques. Alimentar a guerra das consolas é fazer parte dela: é o mesmo problema. Ninguém sai ileso.

Não há tempo para tanto veneno. Às vezes questiono-me se estes adeptos de futebol gostam sequer de videojogos e se passam algum tempo a jogá-los e a apreciá-los ou se a sua vida resume-se a defender marcas que pura e simplesmente não querem saber da sua existência. É uma existência triste. É uma existência cansativa. Então, para quê? Por que motivo continuam a alimentar uma guerra sem fim? O que ganhamos quando uma marca rival desaparece? Nada. A indústria transforma-se num monopólio ainda maior e a variedade de vozes criativas deixam de poder coexistir na mesma indústria. Parece que é este o futuro que queremos.

Comecei a escrever este texto antes da apresentação da Xbox e da Bethesda no Summer Game Fest 2022. Tinha conhecimento dos rumores em torno da parceria entre a Kojima Productions e a equipa de Phil Spencer, aliás, não é a primeira vez que a menciono no GLITCH, e sabia o que ia acontecer. Esta indústria é previsível. Por alguma razão, os fãs da Sony determinaram que Kojima é um produtor exclusivo, quando, pós-Konami, fez tudo para se manter independente. Um produtor independente tem a liberdade de trabalhar com quem quiser, como quiser, não importa quem produziu o seu título anterior. Antes da Insomniac Games ser adquirida pela Sony, relembro que produziram títulos como Fuse e Sunset Overdrive. Isto aconteceu há 10 anos e as reações foram idênticas às que vi sobre Kojima, agora apelidado de traidor, obrigado a explicar aos fãs que mantém uma relação próxima com a Sony e alvo de petições que pedem o cancelamento do seu novo projeto — um projeto que ainda nem sabemos o título, quanto mais o género ou o seu potencial. Vocês não são fãs de Hideo Kojima, mas sim de marcas, de entidades sem rosto. Mantenho o que disse sobre a indústria dos videojogos no que toca à sua evolução como uma arte de autores.

Sabem o que é mais curioso? Os produtores, criativos, artistas, escritores, designers da indústria nunca foram tão abertos e inclusivos como agora. Com as redes sociais, muitos decidiram abraçar estúdios e produtoras rivais em prol do amor pelos videojogos. Aliás, para estes artistas, não existem rivais, mas sim colegas e isso é palpável pelas suas partilhas. Esta é a vantagem das redes sociais, esta partilha de conhecimentos e gostos, mas também de críticas construtivas — que nem sempre acontecem, bem sei —, e não comunidades movidas por negativismo e rivalidades ou contas oficiais que falam connosco como se fôssemos todos amigos. Os criativos estão a mostrar o caminho, façam o mesmo.

A título de curiosidade, tinham conhecimento que a Xbox Series S/X também se liga à corrente elétrica para funcionar como a PlayStation 5 e a Nintendo Switch? E sabiam que as três utilizam cabos HDMI e ligações USB-C? Que mundo!

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