Bayonetta 3 | GLITCH REVIEW

Este jogo não tem ponta por onde se pegue e digo isto sem tom pejorativo; talvez com alguma tristeza entre suspiros… Bayonetta 3 é o melhor jogo da trilogia e o pior jogo da série em simultâneo – se pensarmos no contexto do multiverso que esta sequela aborda, até que faz sentido. Com o melhor combate e momentos épicos, desaba por completo na sua história e como lida com as personagens – veteranas e adoradas ou novas e com potencial.

Se as prequelas passaram pelo Paradiso e pelo Inferno, este jogo decidiu cortar pelo meio e abordar o World of Chaos, o “nosso mundo”, e qual foi a maneira mais preguiçosa, e na moda, de o fazer? Com o Multiverso. Talvez as minhas palavras sejam um nada fortes para quem se interesse pelo conceito, mas depois de o contemporâneo Multiverse of Madness não ter conseguido impressionar com a sua história e excesso de fanservice, passei a associar o multiverso a uma manta de retalhos sem sentido e incoerente. Achei isso no filme e achei isto neste jogo. E reitero que isto é meramente pessoal…

O jogo abre com um bang: uma das realidades alternativas está prestes a ser dizimada por um homúnculo designado de Singularity. Após este acabar com uma variante da nossa bruxa Bayonetta, a última réstia de esperança dos multiversos passa para uma aprendiz de bruxa – a nova personagem Viola. Esta consegue saltar para outra dimensão e o jogo volta a iniciar, mas connosco ao controlo da Bayonetta que já se encontra a combater esta nova ameaça. E algo acontece: os seus demónios recusam-se a devorar as criaturas derrotadas por não possuírem qualquer essência celestial ou infernal. É durante esta introdução que a bruxa recorre à nova mecânica de Demon Slave, que permite controlar os demónios directamente em combate ou durante outros momentos do jogo.

Na calma depois da tempestade, e antes de outras tempestades, Viola situa-nos sobre a situação desesperada em que se encontram todas as outras realidades que ainda resistem a Singularity. E para restaurar uma normalidade ao multiverso, as personagens terão de se separar, com Bayonetta e Viola a explorarem a ilha de Thule em busca das Chaos Gears, e Jeanne a resgatar o doutor Sigurd, o único que sabe manipular os artefactos.

Na teoria, até que parecia um cenário simples e direto. Na prática, foi a tal manta de retalhos em busca de cinco macguffins por capítulos e mundos inconsistentes e apressados, onde o possível auge da coisa era conhecermos as variantes do elenco desses universos. Mas sem qualquer introdução e desenvolvimento, a conclusão desses encontros e qualquer impacto emocional e/ou épico acabava frouxa e nada merecida. Agora repitam isso umas cinco vezes.

E quando não estávamos neste afã, estávamos a jogar com Jeanne e Viola que também mereciam mais, mas muito mais. Os níveis da bruxa fiel a Bayonetta eram uma espécie de mapas metroidvania desinspirados, cujo único ponto positivo eram a sua curta longevidade. Podíamos ter jogado outros níveis normais e explorado uma das bruxas favoritas da comunidade, mas esses níveis (também curtos) ficaram relegados a Viola que vou admitir ter adorado. Adorei a nova personagem, adorei a personalidade, visual, estilo de combate e o que ofereceu ao jogo e o que quero que continue a oferecer à série, tal como o Nero ofereceu em Devil May Cry. A reta final, a conclusão e as pontas soltas deixaram-me a coçar a cabeça, não de curiosidade com o futuro, mas de que raio aconteceu aqui?

Por outro lado, a jogabilidade é fantástica! Um refinar dos jogos anteriores e divertida para caramba! Se não me arrependo do investimento, tanto em horas como na adição deste jogo à minha coleção pessoal, é porque o vício da adrenalina é uma coisa tramada e acabar um dia de trabalho a desancar as criaturas mais bizarras é um dos motivos pelos quais continuo na indústria: pura diversão. Portanto, sim: reconheço que há jogos que não se jogam tanto pela história, mas eu gosto de um prato completo. E se uma das partes falha, é bom que o resto compense e Bayonetta 3 compensa e de que maneira.

Existem novidades que causam alguma estranheza inicial: deixa de ser possível equipar armas individuais aos braços e às pernas da bruxa para passarmos a alternar entre dois arsenais que vamos recuperando das variantes e desenvolvendo ao longo do jogo. Estas armas são apenas fantásticas e algumas ridículas que vão encaixar com as diferentes personalidades da comunidade; já eu optei por armas leves e por um estilo ágil e rápido.

Com estas armas, também recrutamos os respetivos demónios que podemos equipar livremente em cada botão direcional para recorrer à mecânica Demon Slave, onde controlamos as criaturas diretamente e/ou para completar combos. Em troca, a nossa personagem queda-se imóvel e vulnerável, enquanto consome da barra de magia. E esta mecânica atinge o zénite da insanidade e da diversão quando, em certos momentos da ação, as criaturas se transformam e agitam a jogabilidade com segmentos de combate entre Kaiju, de Shmups, jogos musicais rítmicos, entre outros. Tudo isto, com a pompa, a sensualidade e a sofisticação com que a nossa bruxa nos habituou.

Não há lugar para a monotonia neste jogo, uma vez que as mecânicas são uma montanha-russa: se não é o combate tradicional ou os Demon Slaves, é a Demon Masquerade que nos permite fundir com os demónios para atravessar os cenários e completar puzzles. Até as personagens que controlamos diferem entre si, e foi mesmo divertido reaprender a jogar com a Viola que não depende de se esquivar para ativar o Witch Time, mas de uma deflexão certeira. E é tramado quando a memória muscular ainda não bateu para apanharmos o jeito. Viola não recorre aos vários demónios, mas à sua mascote Cheshire que age como tal e ajuda na progressão pelos níveis. Jeanne, como mencionado, foi empurrada para os interlúdios side-scrollers esquecíveis. Estas duas personagens mereciam mais amor, sem sombra de dúvida. Se pensar bem na coisa e sendo honesto: a própria Bayonetta também merecia mais, porque havia algo de estranho na sua escrita e isso levantou algumas teorias e amuos entre os fãs. Talvez se deva à voz diferente, mas também às suas atitudes e relações para com o restante elenco.

Falando em mudança de voz, é impossível não mencionar a melhor e a pior campanha de marketing deste jogo. Para o bem e para o mal, o certo é que desviou a atenção de mais gente para este jogo e para uma série de nicho que apesar da sua qualidade, nunca venceu nem vendeu por aí além. O que é uma lástima. O que é também uma lástima é o seu desempenho na Nintendo Switch. Se formos a ver, o jogo foi anunciado em 2017 quando a consola ainda estava na sua infância. Entretanto, passaram-se anos de outros lançamentos, ports das prequelas e de algumas revisões da consola – poucas que fizessem jus aos jogos lançados agora. E volto a repetir o que disse na análise ao Xenoblade Chronicles 3. Apesar de as cores no ecrã da OLED serem fogo de artifício num céu de breu, as resoluções destes dois jogos fizeram-me lembrar dos tempos em que tínhamos de reduzir as séries para pequenos ecrãs, porque em ecrã completo eram um festim de blocos e pixeis. E este é um jogo que grita por uma velocidade e fluidez numa consola que já não consegue acompanhar. Pelo contrário, cede e arrasta-se em momentos de caos.

No final desta hora das bruxas, não se deixem ir abaixo com as minhas palavras menos boas. Bayonetta 3 é um jogo com uma banda sonora poderosa; divertidíssimo; acessível a pessoas com duas mãos direitas como eu (existem diferentes modos de dificuldade e acessórios que ajudam nos combos) e com imenso para personalizar e fazer, desde desafios adicionais, colecionáveis espalhados pelos níveis a pontuações que poderão sempre superar. Infelizmente, e para mim, apenas falhou no enredo e numa conclusão satisfatória.

A escala utilizada é de 1 a 10

Código cedido pela Nintendo Portugal.

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