O João Canelo Escreve Sobre Videojogos Há 10 Anos

Nasceu-me um tufo branco na barba. Mais exatamente no queixo, do lado direito, daquele que considerava ser o meu melhor lado. Agora, para onde quer que me vire, não consigo esconder a barba branca que se apodera do meu queixo. As fotografias estão arruinadas. Poderia dizer que este invasor surgiu sem aviso, mas seria mentira. No início de 2021, fez-se presente através de uns míseros pelos brancos. Não mais do que isso. Um pelo aqui, outro ali. Recordo-me de achar curioso este aparecimento súbito de pelos brancos, mas, meses depois, transformou-se num tufo. Agora é a sério.

Quando deixo crescer a barba, este novo inimigo faz-se presente. Não há volta a dar. Tentam mentalizar-me de que não é nada de especial ou grave, mas ele está ali, à espera, à coca, de um oportunismo doentio. O sacana é paciente. Tão paciente que lá me apanhou. Dizem as vozes que muitos outros estão piores que eu, alguns até já têm a barba toda esbranquiçada desde os seus 20 anos. Não me posso queixar, dizem, mas o meu queixo já reluz quando me aproximo do espelho, descolorido, velho e rezingão. Passo a mão sempre que o vejo, numa vã e infantil tentativa de limpar o tempo que não volta. Com os problemas dos outros, vivo eu bem, já dizia o meu avô. E o meu avô tinha o cabelo completamente branco.

O meu queixo está a sucumbir ao tempo e já não consigo deixar de reparar nas restantes partes do meu corpo. Olho para as mãos e já não são as mesmas. Encontro rugas e feridas onde a pele se mantinha limpa. As olheiras debaixo dos olhos são tão proeminentes que quase parecem desenhadas. O cabelo vai pelo mesmo caminho. É forte, mas a paranoia leva-me a temer que um dia caia no chão e não se levante mais. Não posso esquecer, claro, que também já se decora de branco para não deixar a barba sozinha nesta demanda de envelhecer-me. O tempo é lixado.

Como me vejo ao espelho depois da minha descoberta.

Sou uma pessoa nostálgica. Um saudosista de profissão. É um dos meus maiores trunfos para o que sei fazer melhor: contar histórias. No entanto, o tufo branco lembra-me do futuro. É assustador. Este é um inimigo que sempre pensei estar preparado para enfrentar. Nunca tive medo do futuro ou do que poderia encontrar na idade. Não tinha receio em envelhecer ou dos temíveis cabelos brancos, mas agora o queixo já não é meu. É de um estranho que eu ainda não conheço, mas que se disfarça com as minhas roupas e com a minha voz. É do além, o gajo, e ainda não sei se me quer bem ou mal, mas ele está aqui, mesmo ao meu lado. Pela primeira vez, sinto o meu peso — não em corrida porque isso já sinto desde que engordei — como nunca senti antes. Sinto e vejo-me mais velho. Daqui a um ano estarei ainda mais. Isto do tempo é real.

Enquanto olhava para este conjunto de pelos brancos, assimétricos e desgovernados, apercebi-me que 2022 é um ano simbólico para a minha estranha carreira de crítico. Em fevereiro, fez 10 anos que comecei a escrever sobre videojogos. Claro que já o fazia antes, algures em blogs de qualidade duvidosa, mas foi em fevereiro de 2012 que decidi responder a um anúncio e perder a vergonha em expor a minha escrita a um público mais vasto. A minha carreira, que pode ser apenas um hobby para muitos, nasceu na Revista Pushstart, quando ainda era feita em formato digital. Juntei-me à equipa com a missão de escrever mais sobre jogos mobile, mas, rapidamente passei a escrever sobre tudo na revista. Um verdadeiro rebelde com cabelo à betinho, já dizia a minha avó.

Os pequenos passos, daqueles que tomamos como inocentes, são sempre os mais curiosos e inesperados. A minha resposta ao anúncio, que encontrei sem querer numa tarde dedicada a matar os meus neurónios no clube de vídeo, trouxe-me exatamente até aqui, ao GLITCH Effect e a todos os sites em que participo e participei. Foi a minha experiência na Revista Pushstart que me levou a perder a vergonha e a enviar o meu currículo para a equipa da BGamer. Em agosto de 2012, iniciei o meu estágio curricular, onde conheci o Duarte e, mais tarde, a Vanessa. Ainda dizem que não há poesia no raio do mundo.

Podem ler a edição aqui.

Como podem imaginar, a minha barba ainda não estava manchada pelo tempo em 2012. Era revestida por um castanho forte, jovem, sem rugas ou cinismo nos seus poros. Em fevereiro, tinha 24 anos, estava a meses de sair pela primeira vez com a Sofia e mal sabia o que ia acontecer, muito menos pensava se um dia teria tantos cabelos brancos como o meu pai, o meu avô e o meu bisavô. O jornalismo e a crítica de videojogos também eram muito diferentes há dez anos. Estávamos a assistir ao advento dos sites independentes, dos críticos que escreviam por amor à camisola e começavam lenta, mas seguramente a conquistar um lugar no mercado, ao ponto dos dinossauros da área — como gostavam de se apelidar — tremerem perante esta nova e inesperada força que crescia de dia para dia. Hoje em dia, dez anos depois, somos todos independentes. Podemos escrever para onde quisermos, até podemos escudar-nos com os franchisados que quisermos, mas os recibos verdes pintam-nos de outra forma. Presumo que não foi este o futuro que muitos imaginaram.

Muito mudou nestes anos. Os sites que vi nascer em 2012 já não existem. Outros nasceram nas suas cinzas, mas poucos foram os que se agarraram às margens do rio e aguentaram a corrente forte desta nova existência digital. WASD, Meus Jogos, Rubber Chicken, Portugal Gamers e não muito mais. O GLITCH Effect, que está quase a celebrar o seu sétimo aniversário, também já se pode juntar a esta lista de resistentes, mas muitos outros caíram. Em 2012, parecia que íamos destronar os grandes e mudar o jornalismo e a crítica de videojogos em Portugal, mas a mudança atirou-nos para o fundo da panela e de lá não saímos. Há mais companheirismo entre críticos, algo que me deixa descansado, mas também existe menos análise, desafio e variedade de vozes. As que surgem são apagadas porque o mercado é canibal, mas também porque ninguém quer continuar a escrever por amor à camisola. O crítico precisa de “pão, pãozinho, pão seco ou duro, mas pão”, já dizia o Luiz Pacheco e a vida nunca deixou de ser abjeta. Um minuto de silêncio para os Escape Rope, Foxbyte, Ene3 (antes do podcast), FNintendo e Pixel Glitch da vida.

Será que já me posso intitular de dinossauro da crítica de videojogos com dez anos de carreira e pelos brancos na cara? Talvez ainda seja cedo, mas os ossos já me doem. As mãos param muito mais do que em 2012, às vezes por falta de imaginação, outras de paciência. Custa-me não ver uma evolução na nossa área, um maior respeito por parte do público e um trabalho mais afincado por todos. Sabem que mais? Às vezes sinto que falhei. Tentei e deu cagada, é o que sinto. É verdade que nunca pensei estar a escrever sobre videojogos dez anos depois de analisar um jogo como A Zombie Survival, que nem os próprios criadores se devem lembrar, mas aqui estamos e aqui ficamos até onde houver paciência. Posso queixar-me, mas também já não consigo parar quando já escrevi tanto e ainda há tanto para fazer. Já passei por críticas, artigos de opinião e investigação, textos onde casei narrativa com análise e até fiz alguns em que decidi ir contra todas as convenções da crítica e desenvolver algo com escolhas múltiplas e em formato de loop.

Também existiu uma passagem pelo portal GameOver, através da BGamer, num dos momentos mais surreais dos meus 10 anos na área.

No entanto, não posso mentir e dizer-vos que continuo fresco, fresquinho e com a mesma vontade em escrever. Isso seria uma enorme mentira. Às vezes não me sinto desafiado, nem por mim, nem por vocês, nem por um público que não sabe o que quer mesmo que essa coisa lhe bata diretamente na tromba. O regresso ao cinema alimentou esta insatisfação escondida há anos e agora é difícil tapar os olhos e fingir que está tudo bem. Quero mais. Quero ser o melhor professor possível e o melhor guionista do mundo. E o melhor crítico? Tem dias. É preciso abrandar. Existe vontade em ser desafiado e existe também uma verve criativa, o que me indica, via código Morse, que afinal ainda não sou um dinossauro. Há ainda muito para fazer. Mas o quê? Uma pergunta sem resposta. Não sou eu que a vou dar, mas sim o João Canelo de queixo mais esbranquiçado. Só não estranhem a ausência, se ela acontecer, ou o cinismo porque preciso de respirar. A culpa é do queixo. Afinal, dez anos são dez anos e muitas horas, minutos e segundos de uma vida. É importante parar e respirar.

Daqui a umas horas vou fazer a barba. Já me decidi e é o que vai acontecer. Vou pegar na máquina de barbear e depois na lâmina para reduzir a barba aos poros de adulto. Vou deixar de ver os cabelos brancos que me atormentam quando me olho ao espelho. Eu sei que eles estão lá. Daqui a três ou quatro dias estão novamente a relembrar-me dos ponteiros do relógio: e pior, a cada semana que passa, angariam novos aliados. É uma batalha perdida! O segredo é ter calma e nunca esquecer que temos a máquina de barbear sempre à mão quando o tufo de cabelos brancos abusar da sua sorte.

Dez anos. Que horror! Digam isto ao João Canelo daqui a mais dez!

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