O Crítico: A Arte de Não Agradar

O crítico é um fingidor. Ao contrário do poeta, que Fernando Pessoa assim apelidara no seu poema “Autopsicografia”, o crítico não escolhe fingir, muito menos abraçar esta prática do falso, do enganador e do dúbio. O crítico também não é uma vítima — louve-nos quem nos olha lá de cima —, mas, é uma figura ingrata, cujas maleitas, ao contrário do poeta, não servem para contar histórias e emocionar quem o lê. Se existe algum respeito e despudor pelo crítico no cinema, no teatro, na pintura, na escultura, na poesia, na literatura e até na carpintaria, já nos videojogos, o crítico parece estar restringido ao papel de cúmplice do pior que se pratica na indústria do entretenimento. É besta e bestial.

Esta carta aberta, que é escrita pela mais alta e sincera falta de paciência — de quem já tanto escreveu em prol da crítica que não sabe o que dizer e como dizê-lo —, nasce da postura da Sony e da marca PlayStation perante as análises de Gran Turismo 7, um videojogo que sofreu mudanças drásticas no seu funcionamento e monetização após uma receção calorosa por parte da crítica especializada. No GLITCH, o Octávio Silva atribuiu ao exclusivo da PlayStation a pontuação de 9, uma classificação de peso, indicando que se trata de um marco na história da série e uma celebração de 25 anos de progresso que começou na PlayStation original e culminou na PS5, no 4K, no HDR, no Ray Tracing e na monetização. Para o Octávio, não existiam dúvidas de que Gran Turismo 7 era um excelente simulador de condução, mas isto foi há três semanas. Hoje, o Octávio diz-me que “tem sido desapontante ver a direção que a Polyphony Digital tomou, comparada ao período em que as microtransações estavam desligadas [para nós, críticos] e sempre soube do facto que eles fossem adicioná-las, mas nunca pensei que fossem prejudicar a progressão para incentivar jogadores a gastarem mais dinheiro”.

Não é certamente a primeira, nem a última vez que uma distribuidora abusa dos embargos e do trabalho dos críticos para garantir uma receção positiva. De facto, a crítica de videojogos tem origens nesta relação comercial entre crítico e distribuidora, uma ligação tão valiosa que determina a existência e inexistência dos textos que leem em sites como o GLITCH. Há uma dependência assumida entre ambas as partes, mas, tal como as produtoras, distribuidoras e editoras estabelecem embargos para a receção de um novo videojogo, o crítico exige que a sua opinião seja respeitada — independentemente se é ou não favorável à marca. Este é o problemático, necrófilo e incontornável status quo da crítica de videojogos.

Estas alterações pós-embargo são a regra quando deveriam ser sempre a exceção. O crítico tem o papel de analisar e dar a sua opinião sobre o produto artístico que lhe é entregue, tal como é, e deve comunicar ao público os seus pontos positivos e negativos, concluindo se merecerá a atenção dos leitores e o preço estipulado pelas marcas. O crítico tem a obrigação de ser sincero, honesto, objetivo, mas igualmente pessoal — e nunca fingido, como já esclarecemos — nas suas análises e é através desta transparência que se constrói a relação de respeito com o seu público. Esta confiança é, no entanto, prejudicada quando, duas semanas depois, o produto analisado é completamente alterado, mas não a classificação dada pelo crítico. Desta forma, para que serve o crítico na grande dicotomia da indústria dos videojogos se o produto analisado nunca é o mesmo? Esta é uma pergunta pertinente: o que estamos a analisar se os videojogos nunca são projetos estáticos e sim sujeitos a melhorias através de atualizações? Analisamos o videojogo tal como chega ao mercado porque é importante informar os consumidores da sua qualidade. O que acontece quando estas alterações são significativas e muito próximas do lançamento? Mais uma dor de cabeça.

A solução para esta falta de comunicação consciente seria cortar ligações, como sabemos, mas, tal como já indiquei no meu artigo — que teima em ser irritantemente atual —, este afastamento das distribuidoras determinará a continuidade dos críticos independentes, sem posses para analisar os videojogos a custo próprio e muito menos capazes de acompanhar a azáfama dos embargos. Não existem respostas fáceis e muito menos soluções que beneficiem ambas as partes. Se existir uma rutura, as perdas serão complexas. O crítico deixará de acompanhar as tendências do mundo digital, o equivalente monetário “à morte do autor” — que Barthes se revire na campa — e as marcas perderão parte da sua campanha de marketing. Esta interdependência entre crítico e distribuidora não tem de desaparecer por completo, apenas ser trabalhada e, primeiro, respeitada.

A Sony pode contra-argumentar e indicar que não existiu má-fé no pré-lançamento de Gran Turismo 7, mas posso confirmar que não tivemos indícios sobre a extensão destas alterações ao jogo. Tínhamos conhecimento da implementação de microtransações, como o Octávio indicou em cima, mas não quais seriam os seus efeitos a longo prazo. A Sony tinha a obrigação de avisar os críticos sobre estas alterações após o fim do embargo? É uma questão interessante. Os críticos analisaram o produto que receberam e classificaram-no como tal, mas, quando se trata de uma atualização tão próxima do lançamento, planeada e aprovada pela Polyphony Digital e pela Sony, voltamos à questão de má-fé. Não se trata de uma adição semanas ou meses depois do lançamento, não é sequer uma atualização para equilibrar os sistemas do jogo, mas sim algo pensado para alterar a monetização de um exclusivo capaz de vender consolas. As atualizações não funcionam como truques de magia ou meros acasos, que, por surpresa, surgem nas vossas consolas.

Tudo é fugaz e, tal como uma crítica, passa a estar desatualizada, também as notícias desta nova atualização são colocadas em perspetiva pela Sony e a Polyphony Digital. Afinal, admite Kazunori Yamauchi, foi um erro e um mau cálculo que será corrigido em breve. Talvez seja chover sobre o molhado, até porque podemos contra-argumentar que o papel do crítico é analisar um produto muito específico — na sua forma, mas também na janela temporal em que é lançado — e o resto que se salve. No fundo, podemos dizer muito e continuar a fazer pouco, mas é preciso pensar sobre o nosso papel à medida que as atualizações passam a fazer parte integrante da análise — como os serviços de streaming — e os embargos são explorados conscientemente numa busca por agarrar a atenção do jogador. Podemos pensar em atualizar as análises ao longo dos anos, mas falta a esmola — e será isso sequer ético? Tantas questões, caros colegas, e todos nós com uma resposta diferente.

Face a estas notícias, o GLITCH decidiu fazer uma adenda à análise onde não vamos alterar a nossa nota. Fazemos parte do sistema e somos adultos. A vida é assim. No entanto, não deixaremos passar este problema sem o identificarmos. Independentemente do que acontecerá a Gran Turismo 7, vamos sublinhar esta decisão da Sony e torná-la visível para quem nos lê. Não interessa se amanhã já não existe se também não interessa o que dizemos antes do embargo. O alvo é para se usar ao peito e não às costas.

Somos críticos. Adoramos a crítica e consideramos a análise de videojogos uma arte. É difícil não sentir o escárnio e o mal-dizer de uma área que tanto adoramos e respeitamos, mas que pouco respeita a dedicação dos seus críticos. No final do dia, somos sempre uns fingidores, uns comprados. Todos recebemos dinheiro para falar bem deste e mal daquele. Esta é a lenga-lenga que ouvimos diariamente, apesar dos nossos esforços, porque é a mais fácil de contar entre tantas outras.

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