Triangle Strategy | GLITCH REVIEW

Passaram-se 30 anos desde a última grande guerra em Norzelia sobre a escassez de recursos, como o sal e ferro. As três grandes nações, Glenbrook, Aesfrost e Hyzante vivem agora uma paz tremida quando decidem explorar uma nova mina que os deveria levar a um futuro próspero e de paz. No entanto, para termos jogo, surge um novo conflito…
E finalmente terminei-o! Como disse nas redes sociais, não tive O final, mas tive o MEU final — um final de acordo com as minhas convicções. Existem mais, tal como existem outros percursos, mas prefiro deixar o jogo marinar para voltar mais tarde com outra disposição e moral. Adorei! Admito que não lhe prestei atenção desde o seu anúncio, muito por culpa do nome horrível, vamos admitir, mas a sequela de Octopath Traveler e a “prequela de Square Platformer” surpreendeu-me sobremaneira! E ainda bem, prefiro ser apanhado de surpresa por bons jogos.

Também não fiquei fã da primeira demo porque alguém achou que abrir com imensa exposição, diálogos, quem é quem e o que raio está a acontecer seria uma boa ideia. Quando cheguei ao primeiro combate, estava tão cansado que desinstalei, mas o produto final apanhou-me de tal forma que me esqueci desse momento até à escrita deste texto. A meu ver, o jogo abriu como muitos jogos do género insistem em não abrir: em vez de um ror de cutscenes e exposição para começarmos horas depois, Triangle deu-nos um breve contexto daquele mundo para arrancar com a primeira batalha. Só depois é que a exposição retomou e não brinco que demorei duas noites até voltar a jogar-jogar. Vá, não demorou assim tanto, mas também estava com Elden Ring! E mesmo que demorasse, achei a história tão interessante e cativante que parecia estar a ler o George R. R. Martin a descrever famílias, políticas ou as muitas refeições que adora enfiar pelo meio. E o facto de ter evitado outros clichés do género para se focar em algo mais real e relacionável aos dias de hoje, como a escassez de recursos naturais, embargos, sanções e outros conflitos político-religiosos foi um ponto positivo. A mencionar que consoante os nossos percursos, poderemos enveredar por outros temas, como o da escravatura, racismo, etc. Em suma, serão as nossas convicções a ditar o novelo narrativo de Triangle Strategy.

Durante a minha carreira de pessoa que escreve coisas sobre jogos, analisei algumas inspirações, influências e cartas de amor ao aclamado Final Fantasy Tactics sem o ter jogado — arriscado, eu sei. E não achei piada a grande parte dos jogos até que finalmente peguei na versão The War of the Lions para descobrir porque se tornou tão acarinhado pelos fãs do género — e foi okay. Fui capaz de reconhecer os alicerces, as influências e a sua importância na altura, mas senti que faltava algo; o algo que me fez apaixonar pelos Fire Emblem ou por este Triangle Strategy: as personagens. Podemos concordar que Tactics tem heróis carismáticos, mas também está pejado de personagens genéricas que se tombarem em combate, é igual ao litro. Já aqui, quando conheci Serenoa e Frederica só os queria ver felizes no final. Fiz o possível para manter a minha amizade com Roland, mesmo com consequências pesadas e apeguei-me às restantes personagens que as trazia sempre comigo em combate, promovendo-as e desbloqueando pequenos episódios para desenvolver as suas motivações e personalidades. Com um leque variado de personagens, umas mais importantes do que outras, temos muito por onde escolher e para personalizar o nosso estilo de jogo, ou até mesmo a história.

Volto a sublinhar que passamos grande parte do jogo a ler. Sejam os diálogos que vão desde os episódios principais aos episódios secundários que expandem o mundo e desenvolvem as personagens ou o lore registado em tomos descobertos durante a exploração ou comprados em lojas. É muito e de fervura lenta, mas é este muito que dá contexto e cor a Triangle. E o que também dá cor ao jogo, é o facto de não sermos meros receptores passivos de informação, uma vez que Serenoa terá de ponderar sobre o que aprendeu para responder à medida e tomar decisões que ditarão o desenvolver dos conflitos. À semelhança de outros RPG onde tomamos decisões, também o fazemos em Triangle, mas estas estão relegadas apenas aos momentos cruciais da narrativa, fazendo uso da mecânica Scales of Conviction que pesa as considerações morais dos nossos parceiros — e as nossas. E é aqui que vamos influenciar ou convencer os camaradas para a nossa causa através de opções de diálogo que se dividem em Utilidade, Moralidade e Liberdade. Se isto não fizer sentido, sigam apenas a vossa consciência. E se gostei destes momentos, gostaria que houvesse mais liberdade nos restantes diálogos, mas com o volume de texto e caminhos variados, entendo a restrição.

E se não estivermos a ler, estamos a combater — a polpa deste jogo. E uma coisa tenho a louvar: a liberdade de controlar a câmara e anular acções! Mecânicas básicas, não?, menos para alguns jogos que tive o prazer de jogar. Virar o cenário para melhor planear um ataque e poder anular um passo errado faz toda a diferença no género táctico e ainda podemos simular acções para termos bem a certeza da nossa jogada porque convém poupar os TP (Tactical Points). Estes TP permitem-nos usar habilidades e cada personagem começa com um para ir acumulando ao longo dos turnos. As magias ou os ataques consomem uma quantidade diferente de TP, o que acaba por pedir uma estratégia financeira na altura de optarmos por um simples ataque ou outro devastador.

Um vasto elenco traduz-se em vários estilos de jogo e é divertido combinar equipas para os mais diversos resultados, trazer o Corentin permite-nos erguer paredes de gelo enquanto atacamos à distância. Já a Frederica pode derreter essas paredes com a sua magia de fogo, criando poças água que combinam lindamente com electricidade ou podemos provocar os adversários para se focarem numa só personagem enquanto atacamos a retaguarda com a fiel assassina Anna. Não temos de jogar ou treinar todos os recrutas, mas se assim o quisermos, podemos aceder ao acampamento e participar em batalhas mentais que dão experiência e outras recompensas. Recompensas essas que vão ser usadas para investir em atributos ou promover a nossa equipa.

Desde explorar o terreno, a meteorologia ou as várias armadilhas que os cenários disponibilizam, ainda podemos aproveitar as habilidades Quietus que vamos desbloqueando com pontos kudos (que obtemos por desempenhar certas acções em combate, como rodear um adversário, atacar em altitude, combinar elementos etc). Apesar de limitadas, são bastante úteis para aquele aperto porque ou podem ressuscitar uma personagem, aumentar a distância de movimento ou apressar turnos.
Entre estes detalhes e os vários modos de dificuldade, Triangle Strategy deixa novatos e veteranos à vontade de explorar sem nunca frustrar.

E se pegam no jogo pelo combate, mas ficam pela história, também acabam por admirar os visuais. Admito que estou e sou fã deste estilo HD-2D desde Octopath e estou ansioso pelas remasterizações anunciadas que o vão utilizar, mas apesar dos efeitos coloridos e dos cenários detalhados, achei as personagens um pouco desfocadas face a Octopath, mas também é possível que tenha sido dos meus óculos ou da memória porque rapidamente me habituei e não tive mais queixas, nem com o tamanho da letra em modo portátil porque com a quantidade de texto, seria a morte do artista – ou do leitor, neste caso.
Podemos admitir que alguns diálogos possam soar forçados ou pomposos em inglês, mas achei as vozes superiores às japonesas até porque se adequavam melhor ao contexto, incluindo a própria banda sonora que podendo não ser grandiosa ou épica conseguiu envolver-me em alguns momentos mais pesados e dramáticos.

Para concluir, foi um privilégio fazer malabarismo entre Elden Ring e Triangle Strategy! Ao passo que o primeiro é subtil em história, Triangle foi o oposto e atingiu-me com um airbag. Em tempos em que os jogos parecem todos iguais, formulaicos e só os jogamos por jogar, de quando a quando aparece uma pérola. Neste caso, duas ao mesmo tempo que nos arrebatam sem pedir licença. À semelhança de Triangle Strategy, também não esperava gostar tanto de Elden Ring e aqui estamos!

A escala utilizada é de 1 a 10

Código para análise cedido pela Nintendo Portugal.

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