Fotografar em Gran Turismo 7 é uma treta

Gran Turismo 7 é um jogo fantástico. O nosso amigo Octávio explica bem porquê na sua análise, aqui no Glitch Effect, e eu também tive a oportunidade de fazer a minha e dizer umas coisas simpáticas, mas o modo fotografia… bolas… estivemos tão, tão perto da perfeição.

Apesar das corridas e dos carros serem o ponto central da experiência, para mim e para muitos outros jogadores pelo mundo fora, fotografar carros em Gran Turismo é metade, 50%, ½, meia parte da experiência! O próprio Kazunori Yamauchi sabe disso, não fosse ele mesmo um prolífico fotógrafo quando não está a desenvolver jogos ou a desafiar a velocidade como piloto profissional. A certa altura na longa história da série, a fotografia passou a ser “uma cena” e eu, enquanto fã e jogador, apaixonei-me pela ideia. Tanto que hoje gosto de ver e explorar novas formas de experienciar os jogos graças a esses modos.

No caso de Gran Turismo 7, temos uma continuidade do que a série nos deu no passado, não só um modo de fotografia banal e genérico, mas uma espécie de simulador de uma DLSR, uma câmara semi-profissional, vá, onde temos acesso a uma panóplia de ajustes e funções, numa interface familiar e com a apresentação de nomes de funções reais aplicados numa câmara e com o resultado dos seus ajustes a replicar o efeito obtido na vida real. É incrível! E é extremamente educativo, tanto que sempre que tenho esta conversa com alguém, eu digo: “O que sei sobre fotografia é graças a Gran Turismo”. E não o digo como um exagero, nem com uma agenda pró-videojogos, é um facto: devo isso à série. Por isso fico feliz por ter o mesmo modo de sempre de volta. No entanto, não fiquei tão feliz foi com a forma com que continua a ser aplicado.

Além do modo de fotografia convencional, de registo as nossas corridas e carros, temos o Modo Scapes. Foi altamente marketizado a caminho do lançamento do jogo e é, na minha modesta opinião enquanto fã, um enorme jogo de fumo e espelhos. Na teórica, Scapes é incrível e tira partido da maioria das funções do modo normal, destacando-se por podermos colocar os nossos carros em mais de uma centena de ambiente à volta do mundo. Mas a sua natureza de fundos falsos (fotografias estáticas de alta resolução com mapeamento tridimensional e HDR), faz com que não possamos colocar-nos close and personal com os nossos veículos e com que fiquemos limitados a um POV estático, sem movimentos de câmaras. O único elemento dinâmico para a composição é a colocação dos veículos e do nosso piloto e isso é-me pouco entusiasmante. É um criador de postais/wallpapers. Entrar no interior dos carros, abrir os capôs e ver os motores, ou usar ambientes tridimensionais, como surgem em algumas cinemáticas em tempo real, está tudo fora de questão. A magia de criar algo único, diferente e dinâmico desaparece rapidamente e os resultados são sempre os mesmos.

Mas a minha crítica centra-se noutro modo, o mais tradicional, onde podemos registar as nossas corridas e momentos mais emocionantes. Em jogo. E quero criticá-lo, porque, no ano do nosso senhor Jesus Cristo de 2022, Gran Turismo 7 tem uma filosofia tão conservadora que a cada passo em frente dá dois atrás e um exemplo disso é o seu amor desenfreado por menus. Pode ser um jogo belíssimo, que aplica agora efeitos únicos e inovadores — como uma resolução mais elevada, iluminação melhorada e mais realista, mais efeitos atmosféricos dinâmicos e até o tão incrível Ray-Tracing no modo fotografia —, mas as oportunidades para usar o modo de fotografia são tão obtusas, que, ao fim de 30-40 horas de jogo (pouco, eu sei, mas o Elden Ring entrou em pista), tenho pouca vontade de voltar e continuar a utilizar este modo. Aliás, vou mais longe: não tenho sequer vontade de continuar a jogar.

Aceder ao modo fotografia é doloroso. Ao contrário de qualquer jogo com modo fotografia, não podemos pausar o jogo no momento/durante uma corrida e fazer “magia”. Gran Turismo 7 só permite fazê-lo após uma corrida, através de um dos seus modos de replay. A partir daí, temos que rever a nossa corrida, saltando para a frente e para trás, com acesso ao frame certo e escolher o modo livre ou um dos ângulos de câmara fixos para inventar, que, por si só, tem outras peculiaridades que nem vou mencionar. Este acesso não tem propriamente mal nenhum e é comum os jogos de corrida permitirem o uso do modo fotografia através do replay. Verdade seja dita, Gran Turismo 7 permite que os guardemos para revisitar e voltar a tirar fotografias.

Contudo, porque é que não podemos pausar o jogo e aceder logo? Ainda estamos em 1998? Nunca teremos essa resposta. É o que é. Mas isto causa um efeito contraproducente para minha forma de jogar, onde me concentro a 100% na corrida e no progresso do jogo (o que é ótimo), mas, no fim, não estou a pensar nas fotografias, sigo para a próxima corrida e perco mil e uma oportunidades de captar aquela ultrapassagem, aquele drift, naquela altura em que o sol estava no sítio certo, etc. Tudo porque o modo está relegado à revisitação da corrida e o jogo não me deixa fazer o que quero no momento certo e com o mood certo.

Assim, o jogo obriga-nos também a planear corridas com determinadas propriedades para preparar uma determinada fotografia em pista, com liberdades inexistentes no modo Scapes, e terminar a corrida para essa finalidade. Tudo isto em vez de simplesmente acionarmos uma corrida de arcade, entrar, pausar, tirar a foto e desligar o jogo ou voltar para outra corrida. A experiência deveria ser mais orgânica, mais natural ou, como hoje dizemos, “mais acessível”, pois tenho a certeza que muitos mais jogadores iriam tirar partido deste fantástico modo. Aposto até que muitos jogadores só conhecem o modo Scapes, o que é, honestamente, uma pena.

Este é apenas um de muitos nitpicks que tenho com Gran Turismo 7. Um jogo onde esperava perder horas e horas a revisitar uma paixão remisturada entre o automóvel e a fotografia e que devido a decisões obtusas como esta, ou das algemas da experiência de navegação do jogo ao passado, fazem com que esta celebração automóvel não seja tão excitante como prometia.

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