Dark Souls Trilogy | BACKLOG

Antes de começarmos esta história, convém irmos ao prólogo. Quando Demon’s Souls entrou no Plus e não existiam PS4 – portanto, há muito tempo, mesmo. A sala estava escura como breu, a minha namorada dormia no quarto ao lado porque tinha trabalhado no turno da noite e eu sabia zero da fama do jogo. Por ter acabado Dragon’s Dogma (mais do que recomendado), estava excitado por criar a minha personagem e começar outra aventura de fantasia medieval, mas (mal?) sabia eu o que me esperava. Na verdade, não me esperou muito porque não renovei a mensalidade. Nisto, passaram-se mais anos. A PS4 saiu e, eventualmente, Bloodborne também.

Achei-o numa Cash Converters, na sua edição de coleccionador (Nightmare Edition). Convém mencionar: eu não sabia o que era um Bloodborne, mas tinha um telemóvel para pesquisar porque, como impulsivo que era (e sou) por edições especiais, não podia deixar passar aquele achado bonito. Comprei-o depois de um trailer e comecei pouco depois para a infelicidade de todos em casa. Entre frustrações, arrependimentos e outros jogos, demorei meio ano para o acabar. Mas raios, se não acabei! Olhando para trás, joguei aquilo de maneira tão tosca e à força bruta do grind que nem desfrutei como deve ser, mas reconheci-lhe qualidades, como a banda sonora que me acompanhou no ginásio!
Acabei por ir comprando mais Souls na fé de os jogar a todos, mas vendi-os antes de lhes tocar. Não me perguntem porquê, não sou a pessoa mais inteligente da comunidade. Até que saiu a Series X e o meu irmão ofereceu-me a trilogia porque deve ter alguma coisa contra mim, não sei. Comecei pelo primeiro, mas não avancei muito.

Entretanto, os astros alinharam-se no final de 2021: eu e um amigo prometemos comprar Elden Ring, apenas se acabássemos um Souls. Ele, Demon’s, remasterizado na PS5, e eu, o primeiro na Series X; a minha namorada acabou o primeiro antes de mim e eu estava isolado por ter apanhado COVID. Portanto, sim, fui-me a isso com outra mentalidade e com as orientações git gud dela. Se fosse morrer de COVID, ao menos levava o jogo comigo! E posso dizer que não só acabei um, como acabei a trilogia toda – mais Sekiro! Como? Honestamente, nem sei responder. Sei é que passei de pessoa que jurava nunca acabar um jogo da série por ser difícil para papar tudo de enfiada!

O que achei da trilogia?, não perguntam vocês. Bem, ganhei um novo respeito pela série e pela suposta dificuldade. Com esta idade, consegui ser surpreendido com os mais fantásticos momentos e com os memes que já tinha visto por aí. Da estética dos cenários que me puxavam à exploração, dos memoráveis bosses quebra-cabeças aos NPC que nos ajudavam nas batalhas, posso dizer que também ganhei um carinho, uma admiração e uma ansiedade pelo que tenho ainda de jogar. Quero repetir Bloodborne e jogar o remake de Demon’s Souls quanto tiver uma PS5 e quero Elden Ring para ontem.

Estou surpreendido comigo! Isto porque eu sou uma pessoa que dá imenso valor à história, às cutscenes, aos diálogos e Souls tem pouco disso. Não é um ponto negativo porque a nível de mitologia é soberbo, só que peca quando tem de contar uma história. Claro que não vamos a seco, temos uma cutscene inicial a introduzir os alicerces do mundo e interacções parcas e crípticas para sabermos aonde ir. Cabe-nos desenvolver a restante tapeçaria através dos cenários, das descrições dos itens, das armas e das armaduras ou ver os vídeos do VaatiVidya! Mas o que conta, e não conta, é mais do que suficiente para nos mantermos viciados naquele mundo decadente, mas fascinante – mesmo quando perdemos uma e outra vez contra o raio do Capra Demon
Sekiro optou por contar uma história mais tradicional e envolvente, com um protagonista e personagens expressivas e com personalidade. Gostei mais deste aspecto, mas nem tanto de outros. Podem ler a análise do Canelo aqui.

Sabem o engraçado? Eu já tinha ideias para um texto bem diferente e frustrado, onde comparava o primeiro Dark Souls a Devil May Cry 5, que também adoro, quanto às suas dificuldades. E dizia uma parvoíce do género:

A dificuldade deste Souls não vem só dos seus bosses, mas do facto de termos de percorrer todo um mapa para lá chegar e morrer uma e outra vez. Ao passo que um DMC5, ou outro jogo, coloca o jogador antes da luta para tentar as vezes que quiser. Mal comparado, seria o mesmo que estarmos a arranjar uma sanita na nossa casa de banho, mas a cada tentativa falhada, recuarmos até ao final da rua, correr até casa a evitar todos os obstáculos e pessoas, voltar a desligar a torneira de segurança para tentar novamente até o trono estar arranjado.

Apesar de já pensar diferente, parte de mim ainda concorda com esta afirmação porque os jogos são difíceis e desafiantes. No entanto, a sua dificuldade não está centrada apenas nos carismáticos bosses. Estes, após perdermos uma e outra vez, tornam-se em lições de passos de dança até os vencermos sem perder energia e com aquela doce satisfação. Ou podemos invocar ajuda em forma de NPC (obrigado, irmão Solaire. Obrigado, irmão Siegward) para não sofrermos mais.

Para mim, parte da dificuldade vem também do design e de alguma inconsistência do jogo e de alguns hábitos que insisti em carregar de outros géneros. Vou trocar as voltas e pegar pelo fim: não dá para jogar Souls como um hack and slash ou RPG puro. Não façam como eu que ia sempre a abrir para morrer uma e outra vez rodeado de esqueletos nas primeiras áreas. Estes jogos pedem paciência; pedem para atrair um inimigo de cada vez para darmos conta dele porque eles fazem o mesmo (menos os cães, que se lixem os cães). É lento, mas funciona. As poucas alturas em que podemos abusar um pouco, é quando encontramos uma bonfire (carinhosamente apelidadas de foguinhos aqui em casa por causa do ídolo acessível, Wandson) porque estamos seguros.

Também não façam como eu e não distribuam pontos por atributos ao calhas só porque sim. Eu era Força, Vitalidade, Destreza, Inteligência, isto e aquilo e tinha uma personagem mal amanhada que não empunhava uma arma sem morrer a meio. Precisava de foco; precisava de me focar no que realmente precisava e eu precisava de uma de build focada na Destreza. Então, despejei o grosso em Destreza e Resistência, com uma catana a acompanhar esta evolução (olá, Uchigatana), para poder jogar quase quase quase como um DMC. E a minha experiência de jogo mudou radicalmente para melhor porque carreguei esta build durante a trilogia. Com isto, a transição para Sekiro foi fluída e é claro que vou começar Elden Ring como samurai!

De volta ao início: admito que os jogos possam tornar-se maçudos mais pelo tempo que passamos a percorrer os mesmos mapas para repetirmos os mesmos bosses e a dificuldade vem do facto de os inimigos voltarem à vida (menos em DS2 que deixam de aparecer quando são mortos umas 15 vezes – o literal vencer pelo cansaço), de alguns obstáculos ou de alguns mapas serem mais obtusos. Não dá para jogar aos poucos, é preciso um certo investimento de tempo tanto nestas correrias, como nos combates.

Depois, existe uma inconsistência nas bonfire. Ora está uma a seguir à outra; ora estão demasiado afastadas, deixando-me com o coração e as almas na mão. Um passo em falso e perdemos tudo, mas já fiquei mais chateado na altura de Bloodborne por perder as almas. Se antes achava que estava a retroceder e a impedir a minha evolução, agora é só uma pequena inconveniência porque não vou demorar até reunir o mesmo número – ou mais. E, claro, o design assim para o arcaico dos primeiros jogos. Fico sem dedos nas mãos se contar as vezes em que a câmara me lixou ou encravou no mapa ou num combate, principalmente com bosses enormes; as secções de plataformas assustadoras porque perdi mais vezes a saltar para um ramo num boss do que a lutar mesmo contra ele e as decisões do arco da velha que levaram a níveis que já são memes na comunidade: No Man’s Wharf e Shrine of Amana em DS2 são simplesmente horríveis, mas também pertencem à sequela que gostei menos e aquela sequência nas varandas em Anor Londo? Pois.

Não queria que isto se lesse como uma análise a cada jogo porque não ia dizer nada de novo, mas tenho de mencionar algo: dada a fama do segundo Souls por não ter a mão de Miyazaki, pensei mesmo em saltá-lo, mas sentei-me para ver porque era “tão posto de parte” pela comunidade. Na minha opinião, não é assim tão mau, mas é esquecível e isso é pior do que ser mau. Após ser introduzido ao universo de Souls, com bosses como Sif, Artorias, Ornstein e Smough, os dragões etc; ter percorrido belos e variados cenários e encontrado personagens interessantes, como Solaire, Siegward, as Fire Keeper, entre outras – ou Patches!, senti que a sequela serviu para fazer nascer algumas boas ideias que continuaram a ser desenvolvidas no resto da série. Não tenho boas memórias do jogo do meio, para além de alguns temas musicais, como o de Majula. Muito menos me recordo de bosses, sei que havia um cavaleiro com um escudo de onde saíam outros adversários – pensando melhor, este era bem fixe! No geral, achei-o chato e frustrante e parecia que o estúdio sabia disso… Foi a única pedrita no sapato porque amei o terceiro jogo e todos aqueles motivos religiosos, como as procissões ou os Deacons! Certo, alguns bosses até foram mais gimmicky, mas o combo visual, sonoro e de entretenimento? Sem palavras – Dark Souls 3, mais os DLC, foram o final perfeito da trilogia.

Depois há outra coisa: há quem diga que os Souls são mais do mesmo. Ou que Elden Ring é um Dark Souls 4 com outro nome e até posso concordar, mas vejam a série como vejo outra das minhas séries favoritas: Yakuza. Até pode ser a mesma Kamurocho, as mesmas mecânicas e animações recicladas, mas as histórias foram sempre inovando, o que funcionava foi desenvolvido e o que não funcionava foi melhorado. Até que chegaram a um ponto e criaram um Yakuza: Like a Dragon por turnos. Este Elden será quase isso: um Souls, mas em mundo aberto e eu, como pessoa que não é grande fã de mundos abertos, estou demasiado excitado para o jogar. Em dezembro, a minha curiosidade era bastante reduzida, mas agora conto os dias para me perder nas Lands Between e ver que aventesmas me esperam ou para descobrir até onde se estende influência de GRRM, um dos meus autores favoritos (recomendo lerem-lhe os outros contos/livros para além de Game of Thrones). Com esta aproximação aos Souls, tenho a perfeita consciência de que a história poderá ser menos envolvente do que um Sekiro, mas como tive alguns problemas com este, nem estou muito importado. Se aproveitaram algumas das suas mecânicas, já me dou por satisfeito.

Estou feliz por ter (re)descoberto a série nesta fase da minha vida e sinto que melhorei desde a minha experiência imberbe com Bloodborne e que, eventualmente, got gud. Já não me sinto tão frustrado ou impulsivo, consigo jogar com satisfação e rir-me de quando perco pelas razões mais parvas. Também nem me sinto culpado de quando me vingo do jogo ou venço pela batota, ai o boss ficou preso no mapa? Ai caiu do cenário? Porreiro, está feito! Ou aquela vez em que usei um arco no Nameless King para não ter de repetir a primeira fase tão chata (já mencionei o quão mau é a câmara do jogo com inimigos gigantes, mesmo sem lock-on?).

Em suma, houve jogos que joguei porque “tinha de jogar” por estarem no backlog ou por ter de os analisar, mas não senti isso com Dark Souls. Só queria acabar o dia de trabalho ou que chegasse o sábado para me estoirar até às quatro da manhã. Aconteceu, perguntem à Sister Friede! E para responder à eterna pergunta se Souls beneficiaria de mais opções de dificuldade: continuo a dizer que sim. Mais pessoas deveriam poder desfrutar desta série! Se a gratificação seria a mesma? Não, mas isso seria com cada um porque cada um sabe de si e Deus sabe de todos. Depois desta aventura, ou continuo a explorar o que existe no género ou volto a meter os jogos no modo mais fácil. O que interessa é mesmo a diversão. Se não vos apanhar nas Lands Between, um bom dia, boa tarde e boa noite.

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