Unpacking, Mafia: Definitive Edition, Marvel’s Guardians of the Galaxy & Northern Journey | Diário de Janeiro

Decidi começar 2022 com algum oxigénio nos pulmões. Experimentei fazer algo supostamente impossível nestes últimos dois anos de pandemia e escrita: saí de casa, inspirei e enchi os pulmões. Quem diria que largar o teclado poderia ser tão terapêutico? Este inspirar-expirar é tão metafórico, como real, mas em várias faces. É verdade que estou a apreciar o meu descanso da escrita desenfreada dos últimos meses, mas este interregno é também uma procura pelo que ficou esquecido e para trás. Na verdade, este Diário é uma enorme contradição. Estou a escrever outra vez. Inspirem!

Estou decidido em terminar mais videojogos do que aqueles que começo. O rácio está tão desequilibrado que colocá-lo por números, torná-lo matematicamente palpável, seria aceitar a vergonha. As doze badaladas de 2022 traçaram uma nova mentalidade, onde em vez de ir mais vezes ao ginásio, decidi focar-me num punhado de videojogos que já tinha começado. Um a um, sem o sufoco das análises. E assim foi. Posso confirmar que terminei Record of Lodoss War-Deedlit in Wonder Labyrinth-, o fantástico, mas muito curto metroidvania que recomendei antes de empacotarmos 2021 para o raio que o parta. Um metroidvania muito sólido, conciso e divertido do princípio ao fim que ganha pela sua curta duração e exploração dinâmica.

Por falar no ato de empacotar pertences, nossos ou de outros, saltei finalmente para Unpacking e foi uma viagem de uma só virada. O título da Witch Beam apresenta um daqueles conceitos geniais que qualquer designer poderia descartar pela sua aparente simplicidade e proximidade à realidade. Ainda bem que não pensamos todos da mesma forma. O ato de desempacotar as caixas e arrumar, gradualmente, uma vida, ao longo de vários anos, torna-se numa experiência muito pessoal e até dramática, enquanto vemos crescer uma personagem cuja presença nunca é sentida fisicamente. São os seus objetos que a caraterizam e contam a sua viagem, desde os peluches que viajam de casa para casa, até ao diploma debaixo da cama por falta de consideração e apoio do seu parceiro. São pequenos momentos, quase microscópicos, que transformam Unpacking numa experiência memorável, ainda que possa não ter o mesmo impacto para todos os jogadores.

Uma simples ação consegue ter um efeito permanente no jogador e afetar a sua perceção do videojogo e da sua narrativa. Este momento é um excelente exemplo.

Esta ideia de vivência e pertença acabou por influenciar a forma como vejo e sinto a história e a caraterização do elenco de Marvel’s Guardians of the Galaxy, no sentido em que consegue adaptar as irritações, choques e crescimento pessoal de um grupo de personagens obrigadas a viver em conjunto. Ainda estou longe de terminar a campanha, mas foi um dos jogos que me acompanhou neste início de ano, onde já pude perceber o que levou tantos jogadores — e o nosso David, caso queiram ouvir — a identificá-lo como o melhor de 2021. Há muita emoção no centro de Marvel’s Guardians of the Galaxy e é interessante perceber como a Eidos Montreal não só conseguiu criar a sua dinâmica de grupo, como a crescente amizade por este conjunto de personagens improváveis. A jogabilidade é o seu ponto mais fraco, infelizmente, mas vou reservar a minha opinião até terminar a campanha.

O mês tem sido composto por algumas surpresas, mas também por desilusões autoimpostas. Mafia, antes da sua versão definitiva, manteve-se presente na minha vida como um dos videojogos mais recomendados por colegas e amigos. No lançamento de Mafia III, recordo-me da Vanessa falar carinhosamente das suas memórias com o jogo, mas nunca dei o salto. Não estava disposto a saltar para uma experiência que parecia cheirar a naftalina à distância. Quis o destino que a naftalina continuasse presente na edição definitiva, com Mafia a deixar-me muito insatisfeito com o seu remake pouco ambicioso. Apesar das melhorias, que tenho de louvar no que toca às melhorias visuais e à adaptação da cidade de Lost Heaven à era da alta definição, a estrutura da narrativa e a história de Tommy Angelo deixaram-me um vazio no coração. Faltou a demanda pessoal, o crescimento e desenvolvimento das personagens e uma aposta menos focada em missões repetitivas e restritas no que toca ao seu design e tom. É um jogo episódico cujos momentos mais marcantes acontecem fora da jogabilidade ou apenas por sugestão. Sinto que a história que tanto queria conhecer está lá, mas presa a uma estrutura que não se conseguiu libertar dos seus 20 anos de existência. A naftalina não sai facilmente.

Não existe, no entanto, nenhum videojogo que se aproxime da experiência deliciosa que tenho vivido em Northern Journey. Desenvolvido pela Slid Studio, este “one person show” é uma das pérolas perdidas de um ano sólido, mas atípico para os videojogos. É fácil perceber porque Northern Journey ficou perdido entre lançamentos, desde o seu estilo visual nostálgico, reminiscente do início do século XXI, ao aglomerado de mecânicas e géneros que criam uma mensagem não só estranha, como supostamente inconsistente. Será Northern Journey um jogo de sobrevivência? Uma experiência de terror? Algo mais linear? A mensagem é difusa, mas sentir as mecânicas a encaixarem como peças de um enorme puzzle traz-nos uma compreensão impossível de transmitir através de trailers ou de vídeos de jogabilidade. É preciso jogar Northern Journey para perceber como funciona. É preciso visitar estas terras nórdicas para compreender o que as tornam tão misteriosas e hipnotizantes.

O que me fascina em Northern Journey é a sua junção entre uma estrutura clássica e linear com o experimentalismo apenas possível numa produção independente. No papel, Northern Journey é uma aventura na primeira pessoa com foco na exploração e no combate, mas à medida que ficamos embrenhados pelo seu mundo peculiar, mais conseguimos ver sobre o seu design. As zonas estão inteligentemente interligadas, criando atalhos que nos levam a descobrir novas cavernas e locais inesperados, com vários caminhos alternativos que escondem sempre uma recompensa para os mais curiosos. Apesar de apostar em zonas bastante amplas, o design de Northern Journey faz com que os cenários sejam de fácil leitura e focados para que a exploração nunca perca a sensação de descoberta.

Existem alguns problemas, nomeadamente o sistema de mira, mas adoro o quão arrojado é onde mais importa. A banda sonora, as personagens, os momentos de calma, a colisão entre a força da natureza e as ruínas deste mundo perdido no tempo são apenas alguns dos elementos que tornam Northern Journey num videojogo inesquecível. Com algum polimento, especialmente nas batalhas, poderia ser ainda melhor e acredito que tinha feito parte da minha lista de videojogos de 2021 se o tivesse jogado antes do final do ano.

E expirem! Fevereiro está quase a chegar, já contamos os dias para mais um mês de lançamentos de peso. Horizon Forbidden West e Elden Ring são apenas dois dos destaques num mês que já começa a ganhar tração no que toca a novidades. A calma de janeiro está a desaparecer. Este é o último momento para respirarmos livremente e enchermos os pulmões de descanso antes da velha lenga-lenga das análises regressar em toda a força. Aproveitem, joguem e preparem-se. Lá vem mais um ano.

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